Amigas do Peito

por Laura Rangel Batista  Odontóloga, especialista em Ortopedia Funcional dos Maxilares  Mãe de dois adolescentes

Não precisamos neste momento falar da importância da amamentação como direito e, acima de tudo, da necessidade de todo mamífero de mamar. Vamos discutir sobre como desmamar. Ao longo da minha vida pessoal e profissional, tenho observado o quanto nós nos distanciamos dos nossos instintos de fêmeas. Estamos inseguras com o nosso corpo, e o que dirá, com o corpo dos nossos filhos. Vivemos a era tecnológica e assim estamos cada vez mais afastadas do corpo, do coração e dos instintos. Por exemplo, quando uma cadela desmama seus filhotes, ela o faz porque eles não são tão dependentes como antes. Estes filhotes começam a experimentar o mundo ao seu redor. Com os nossos filhotes não é nada diferente, se nós não complicarmos. E normalmente, em prol da facilitação do agora, nós criamos grandes problemas para o futuro.

 Até os seis meses de idade, é preconizada a amamentação exclusiva e, então, neste momento, se inicia a introdução dos alimentos de maneira progressiva. Porque usamos a mamadeira? Ou aquele copinho com bico duro? Por pura “facilidade do agora”, mas estamos arranjando um provável problema para amanhã.

Quando a criança mama no peito, ela usa a cadeia muscular que usará para mastigar. Sua língua fica elevada, comprimindo o bico contra o palato, e ocorre um avanço mandibular. Quando nós inserimos a mamadeira, criamos uma “confusão” muscular, ou melhor, neuro-muscular, já que é outro estímulo. Há uma grande contração do bucinador, abaixamento da língua, início da respiração bucal e, às vezes, alergias devido à introdução do leite de outra mãe, a vaca. Mas o pior está por vir: é quando o nosso filhote já se locomove sozinho e nós introduzimos o copinho de bico duro tão prático. A criança vai e vem, e para isto ela precisa ver por onde ela passa, então o copinho é colocado na boca de lado, para não atrapalhar seu campo visual. E daí? É que agora, além de tudo que acontecia com a musculatura, com o uso da mamadeira, agora acontece um desvio da mandíbula, levando o nosso filhote a ter também uma mordida cruzada lateral ou anterior, crescimento da mandibular (o famoso gaveta aberta), ou mordida aberta, isto sem se falar da probabilidade das cáries, pois nós normalmente adoçamos tudo bem direitinho.

Ufa! Desculpe-me, mas é isto que eu tenho observado na minha clínica. Creio que a nossa dificuldade de desmamar está ligada provavelmente ao nosso desmame, que talvez não tenha sido dos melhores. O ser humano tem muita dificuldade da separação, do deixar partir, de se despedir e começar uma nova relação. O processo de desmame é mais uma separação que a dupla mãe-filho vai passar, e não há substituto da boca do nosso filho ao nosso seio. Então porque criamos seios substitutos para a boca dos nossos filhos? O que sugiro é não tentar facilitar no agora com mamadeiras e copinhos. Alimente seu filho na colher, no copo. É lógico que o bom senso é tudo na vida, mas exerça a sua maternidade e cresça nesta linda relação. Boa sorte para vocês.

 Esse post foi publicado de quarta-feira, 1 de outubro de 2003 às 11:00